VOCABULÁRIO DE IDEIAS PASSADAS

15/05- MAIS UM BAHIA

Com oléchocolate e viradafilial é campeão no lixão. Parabéns, Vice.

12/05- Dois textos:

Os passaportes diplomáticos da família Lula

A medalha de Genoíno

enviados por Pedro Vieira

……………………………………………………….VOCABULÁRIO DE IDEIAS PASSADAS

Este livro é de 1993 e, graças a um telefonema recente, caiu em minhas mãos. Reparou no título? Não me aguentei quando vi. E no mundo entre parêntesis: ensaio sobre o fim do socialismo? Seu Tomás (dono de O CANTINHO DO SEBO – veja comercial na nossa coluna lateral direita) ligou para mim porque havia adquirido a biblioteca de um professor de filosofia, que se acomodou sem protesto visível em seu novo habitat (claro que só comprei o indispensável). Mas se tivesse ligado só por esse título e subtítulo lançados pela Relume Dumará/ISER já teria valido a viagem. Na verdade, só aquelas mãos agredindo aquele arame (foto)… Não poderiam estrelar um filme sobre o Chile de Pinochet? Sintomático, né? Reflete bem uma das passagens fumegantes do livro:

“…Vivemos em círculos. Se avançamos sempre à esquerda, terminamos na direita, e vice-versa…” (fl.97)

Você tá acompanhando, né, leitor? Um sistema de vida criado (ou pelo menos imaginado) para o trabalhador (o socialismo) foi destruído, por ter-se tornado sistema de morte… Não é incrível? Sim, concordo, é velha a  história. Mas, detrás das cortinas rasgadas (termos do livro) da antiga URSS, emergiram, além da já antiga e sabida crosta de carrapatos (êta bicho que tem ideologia!), um mundo  protagonizado por donos de capital. Não muitos, é verdade, mas alguns com grana  o suficiente para dar bola pelo mundo até a grandes clubes de cartola e futebol.  Perguntas inocentes:

        • como tudo isso pôde acontecer? (do livro)
        • Não se tratava de um modelo avesso a dinheiro e aplicado por abnegados gerentes da História?

Sim, mas humanos e nem tão abnegados assim (veja que, bem pertinho de você, sumiu um din-din bom, forte, pesado, por um bom tempo, sem ninguém ver, nem falar… Dê uma olhadinha em “SERRI, GENTE”, A RIQUEZA E A POBREZA DAS NAÇÕES …). Além disso, não tinham muitas regras a obedecer nem sanções a sofrer, a não ser as da própria corte.  Mas essas o princípio “nós mesmos seremos capazes de determinar o que é e o que não é verdade…” (veja A GUERRA QUE ELES NÃO PODEM PERDER e PARTIDO DA CLEPTOMANIA DO BRASIL) ou verdadeiro é o aprovado em plenário”, trazido à luz pelo livro (fl.57),  sempre relaxa.  E, assim, nascem as grandes verdades que precisam de censura para sobreviver.

Claro que, desde 1956 (ano em que a terra conheceu o real mundo de Stalin, através das palavras oficiais de Nilita Kruschev), sabia-se que tudo era falso ou asfixiante, como sempre foi e sempre será sob qualquer ditadura. Afinal, elas não são feitas para o gozo e glória de quem as faz? Foi pouco o que autor disse dos grandes laboratórios de verdade e centros de decisões já tomadas, que foram (ou são) os conhecidos “congressos”. Mas foi direto:

“…os perdedores de uma disputa vinda a público somente poderiam recuperar o acesso à esfera dos debates secretos, caso se submetessem ao cerimonial de autocrítica, no qual confirmavam o seu reconhecimento da incompatibilidade de uma divergência aberta com o modo de pensar e ser do sistema…

Só não explicou por que os dissidentes precisariam ser recuperados. Afinal, pra que recuperar, se os expurgo eram feitos também para abrir caminho às novas e ansiosas “lideranças”?  ANTES, DURANTE e DEPOIS (do socialismo real) são os três compactos departamentos em que se divide o livro, todos tratando dos grandes traumas e polêmicas diários que redundaram no grande desastre e equívoco fenomenal (termos do livro) desfeitos praticamente de uma vez  naquele final dos anos 80. Pode parecer pouco, leitor. Mas está-se falando de uma era de absolutas certezas e de um mundo que – por tudo saber e explicar (“científico”) – sequer admitia reformas (“revisionismos“). Está-se falando de um mundo 100% previsível e controlado que – até por abolir a ideia de vicissitudes que ele próprio consagrou com o nome de dialética – veio a se materializar como o maior fracasso da ciência política de todos os tempos, como o próprio autor ressalvou. Falando de dentro e tratando de termos que aquele mundo alardeou como seus e desmoralizou (socialismo, utopia, solidariedade, companheiro, justiça, liberdade, democracia, integridade…), esse Vocabulário de Ideias Passadas lembra que o marxismo elevou a mão de obra à grandeza de sujeito histórico, mas o partido (a nova classe) a rebaixou a massa de manobra. Que outra expressão poderia representar melhor aquela festa de 1989, senão “porre de felicidade” (fl.150)?  Outras expressões:

“…se o totalitarismo nazista demonstrou o que uma ideologia perversa é capaz de realizar, o socialismo totalitário mostrou a perversão de que é capaz a boa intenção esclarecida. Poucas vezes na História a realização de uma utopia teve efeitos tão devastadores…” (fl.10);

“…a nomenclatura (os executivos do sistema. Magnatas, no dizer de Simon  Sebag Montefiore, em STALIN, a corte do czar vermelho. Veja STALIN, MAO, FIDEL (e ERENICE)) configura-se, portanto, como a elite no poder cujas mordomias dependem da manutenção do status quo. No último ano, no entanto, diante da iminência das reformas, deu-se um fenômeno até aqui imprevisto: o arrendamento de empresas públicas aos seus antigos diretores, a título de concessão! O estaleiro Lênin, por exemplo, foi retalhado assim em uma dezena de firmas. Dirigentes do Estado tornam-se então entusiastas da privatização. O Solidariedade denunciou esse processo como ‘banditismo’…” (fl.99);

“… a morte de companheiros, prisões, exílios, trabalhos forçados, hospitais psiquiátricos, censura sistemática, invasões militares, tudo aquilo enfim que alimentou a imprensa anticomunista desde que cada um de nós se entende por gente, foi experiência pessoal dos povos de lá…”(fl.100);

“…um regime montado sobre valores coletivistas gestou um tipo característico de egoísmo. Boa parte da literatura dissidente (…) denuncia a natureza perversa do individualismo burocrático, onde cada um cuida do seu, supondo que o todo é de ninguém (…) A pequena corrupção, generalizada, a esvair a coisa pública (…) A revolução, feita e mantida em nome do trabalhador, cristalizou-se num sistema que, na prática, desmoralizou o valor do trabalho. Sem sindicatos independentes, sem o direito de greve, os trabalhadores não dispunham de instrumentos para reivindicar…“ (fl.103)

“…Na Romênia, caso extremo, toda máquina de escrever devia ser registrada e o registro (condicional, naturalmente), ser renovado a cada ano…(fl. 103. (veja VIDEOGRAMAS DE UMA REVOLUÇÃO)

… o grande ‘barato’ na Polônia, hoje, é fazer romaria…” (fl.133)

“… a pastoral camponesa ganhou impulso com a organização da primeira romaria nacional dos trabalhadores da terra, em 1982 (…) Foi também em romaria que o Padre Popieluszko lançou a pastoral operária, estritamente proibida pelo Estado e temida por grande parte do episcopado. Isso foi em 1983. Um ano depois, este padre foi raptado pela polícia política, torturado, morto e seu corpo jogado no rio... (fl.137)

“…aplica-se aqui o princípio de quanto mais delicado o assunto do ponto de vista do governo, menor o espaço que lhe deve ser dedicado. Vem daí o costume dos leitores de começar a leitura dos jornais pelas notícias mais miudinhas…” (fl.143) Isso lhe lembra alguma coisa leitor (veja ANO ZERO, DIA ZERO, GRILAGEM x APAGÃO MORAL,  A PULGA, O BURRO e AS NORMAS …)?

“…A inércia burocrática era tamanha que sequer os dirigentes conseguiam dirigir. O controle da informação era tão generalizado que sequer os censores conseguiam se informar. Os membros do Comitê Central ligavam os seus aparelhos na Rádio Europa Livre para ouvir as notícias que eles próprios, enquanto donos do poder, acabavam de produzir (…) A utopia devorou-se a si mesma” (fl.162)

Notou que nem tudo é tão diferente, assim? Um outro mundo é possível? Sim, mas com poder aquisitivo, judiciário, educação e vergonha, como afirma a história. Por ser de um ex-militante da esquerda dos anos 60/70 com graduação (e pós) em História, Filosofia e Antropologia;  e por vir de um autor que viveu na Polônia durante boa parte dos seus sonhos e pesadelo dos seus anfitriões (24 anos), esse livro de Rubem César Fernades sabe que pouca coisa é tão exuberante quanto discursos. É curto, só tem 230 paginas de letra miúda, mas – conhecedor do abismo entre a propaganda e o produto entregue pelos corretores do céu na terra – é suficiente para lidar com o universo mental e os hábitos provectos (termo seu) de uma esquerda atormentada por controle, privilégio e poder. Lendo-o, não há como deixar de se perguntar:

  1. Que outra alternativa resta senão sociedade civil: democracia – poder de a sociedade botar colera no Estado e no Capital (termos do Professor-Doutor Roberto Albergaria/Rádio Metrópole);  ou expansão da sociedade para dentro de si mesma: bens, direitos, deveres, observância das normas…; ética – única prisão de segurança máxima capaz de conter a fera, justamente por ser feita de conceitos e princípios que o próprio preso não aceita atacar; e  cidadania – responsabilidade individual pública?
  2. como, enquanto a coisa já se degringolava com todas as provas por lá, boa parte das nossas “melhores” cabeças  pegavam em armas para defendê-la e implantá-la, por cá?

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