50 ANOS A MIL: A EPOPEIA DE LOBÃO-parte1

10/03- Sempre que passo correndo por ele, grito: ‘grande Osni’ (é comum vê-lo na orla). Ele levanta o polegar com um riso agradecido.  Quando eu voltava, hoje, sabia que era ele à minha frente e desconfiava de que o corpanzil desajeitado, calção sem camisa e sandália pouco cuidada andando e falando meio pendido prum lado fosse quem parecia que fosse.  Não precisei acelerar o passo porque quem vinha de lá pra cá comentava: ‘sabe quem são aqueles dois, ali?’.

E o grandão de cabelo de índio e pneus arriados sempre dava uma paradinha, atento aos cumprimentos. Aí, os acompanhei. E buli no coração (no meu):

“Baiaco destruindo tudo, Osni, Picolé, Douglas, Beijoca e Jesum… E neguinho achando o Barcelona a 8a maravilha do mundo!…’

Foi legal o riso. E fui logo emendando (todos andando):

“…Quando fui à primeira vez na Fonte Nova (1977, recém-chegado a Salvador), entrei no xaréu (depois dos 40 do 2º tempo). Ainda tava olhando o estádio, quando vi a torcida do Bahia: ‘Êh, Êh,  Êh, Êh, Êh, Êh,  Êh, Êh…!!!!. Quando olho, vejo uma um calção azul saído do túnel, à toda, atrás do juiz (o calção havia sido expulso). E a torcida:  ‘…pega, pega, pega…’. Era Beijoca, num dia de semana à noite…

E ele, rindo: ‘foi num jogo contra o Galícia…’. E bateu de primeira:

‘Meu irmão (com a mão no meu ombro), desculpe eu lhe perguntar, mas se eu lhe pedir um voto pra vereador em Salvador, você me dá?’

“Na hora, Bejioca. Não só voto como faço campanha, independente de  partido e do que você vier a fazer, lá…”, disse.

Vote mesmo, faça por ele o que o Bahia não fez’, emendou de cabeça o baixinho Osni. Taí: Faça por ele o que o Bahia não fez

  • Douglas é o que também está com a mão na bola, na foto do meio. Veja, também,Adeus, FONTE…

.………………………………………….50 ANOS A MIL: A EPOPEIA DE LOBÃO-parte1

“…Ele logo me avistou, foi ao meu encontro já com a mão esticada (…) e se autoanunciou: ‘muito prazer, Nelson Gonçalves, eu sou você anteontem’. ‘Que prazer em conhecer o senhor, meu mon…’. ‘O Senhor é o caralho! Porra’ (…) Tenho certeza que sou bem mais maluco que você, porra’ (…) e fazia questão de escarrar no tapete a todo instante: ‘Ô Lobão, sabe porque eu escarro no tapete desta merda?”… (fl.339)

É assim, um escarro.

A partir de hoje, resenha neste blog passa a se chamar viagem em livro.

Na arte, na política, no futebol e na razão, o tempo que formou Lobão foi fausto. Acontecido no seio de uma cidade que a natureza criou para show roon (gostou do português claro, leitor?) da sua arte e recebido por uma família de classe média dada a cultura – e antes dos eufóricos anos 60 – o incomum João Luiz Woerdenbag Filho (Lobão) não nasceu sem sorte. Só pra se ter ideia, ainda menino o recluso João Luiz passeou pelo encantado ambiente dos antigos festivais da canção (FICs: http://pt.wikipedia.org/wiki/Festival_de_M%C3%BAsica_Popular_Brasileira ) e saboreou “…a sensação de ver os Mutantes tocando “Ando meio desligado” na sua frente (http://www.youtube.com/watch?v=NIGGk05DWYk, fl.98). Que tal leitor? Apaladado por um a desse, dá pra não se ter um certo gosto? Notou que se tratava de uma cozinha cheia de enredos e alegorias saídos dos maiores mestres-cucas não só da canção, né?

É ou não difícil negar a tese do alemão Heidegger (Martin Heidegger – Wikipédia, a enciclopédia livre), para quem os destinos sempre dependem do lugar onde nascem, por mais que lhes caiba caminhar? Às vezes, é verdade, o terreno é bom, mas a semente, ruim, e vice-versa, como ocorre também de nenhum prestar. Também não é natural tudo ser bom ao mesmo tempo. Mas – como sabemos – embora “…na natureza, poucas sementes cheguem a árvore sem se enraizar em esforço, eficiência e aprendizado… (veja AH, SE EU SOUBESSE, MINISTRO JOAQUIM BARBOSA: “Judiciário tem grande responsabilidade pelo aumento da corrupção no país”…), o mais comum é o terreno negar a árvore.  Dúvida? Não seja por isso: O DILEMA DE TEREZA CRISTINA. Se o eventual senão for com relação a Churupito (João Luiz antes de Lobão), olho em Paulinho da Viola:

Mas  se a questão são os Mutantes, veja LoKi (http://loki.canalbrasil.globo.com/sobre_filme.html ), o recente documentário em que Arnaldo Batista (formador  do grupo com Rita Lee e Sérgio Dias) reaparece e é ovacionado em Londres, inclusive por Sean Lennon, filho de John.

É meu amigo, tá pensando? O mundo já foi mais interessante e no Brasil já deu até Villa- Lobos… Mudou, né? Ora, se mudou… E de cima a baixo! (Clique sempre nas imagens para vê-las com zoom). Autodidata, incomum e aprendendo a nadar em águas de um Rio ainda cidade maravilhosa que os anos 70 ainda desembrulhariam, Lobão foi não só testemunha, como participante do melhor que a cultura urbana letrada gerou no Brasil (e no mundo), o que inclui Novos Baianos e Secos e Molhados (veja MULTIUSO6).

Pós-Tropicália, ele ainda foi da Blitz e lidou de perto com Lulu Santos, Marina e Cazuza,  com quem escorreu a garrafa da contracultura (até por Arembepe, ele passou, fl.215). Por falar em mundo, sabe quem pintou num delirante Festival de Saquerema (Rio, 1976) que a revista POP transmitiu quase irresponsavelmente para as minhas retinas (veja MULTIUSO9)? Patrick Moraz, o tecladista do grupo inglês Yes, com quem Lobão andou perdendo algum tempo (fl.173).  Era um tempo pródigo, pelo que parece, né? Conhecendo o sucesso (de crítica e público) em uma cena já dividida com Renato Russo, Legião Urbana, Titãs, Barão Vermelho, Paralamas do Sucesso, RPM, Ultrage a Rigor, etc (e, claro, todo os ídolos saídos dos FICs ), esse filho da mãe que era fã incondicional de Chico Buarque e Médici (a mãe, não o filho, fl.17) e autor de Revanche (http://www.youtube.com/watch?v=1Xk-E46A9QY ) jamais deixaria de honrar a tradição que elege Poesia, Política, Transcendência, Razão, Emoção, Irreverência (essas coisas que a arte empresta à vida) como a matéria prima do artista. Depois? Bem, veja BAILINHO DE QUINTA.

…Vida Louca
Vida!
Vida Breve!
Já que eu não posso te levar
Quero que você me leve
Vida Louca
Vida!
Vida Imensa!
Ninguém vai nos perdoar
Nosso crime não compensa…

(Vida Louca/Lobão)

Até pode parecer que não, mas por aí já se vê que a coisa não foi fácil, né, leitor? Se ligue porque ainda vem …vida bandida…“,… quem é que vai pagar por isso?…“, e   “…nem sempre se vê lágrima no escuro…” já tá chegando. Aliás … (contracapa):

E tudo era tão promissor! Ainda não tinha completado 10 aninhos e o típico menino da zona sul carioca já tinha tido uma visão do outro mundo. Seus olhinhos que ainda criam em cegonha, mas que já haviam notado “Zildinha”, topam com Christiane…

“…que iria ser a primeira amiguinha da minha irmã na rua …, amiguinha linda de doer …, que em alguns anos se tornaria conhecida como Cristiane Torloni…”(fl.62)

Deve ter sido uma paisagenzinha chata de ver, né, leitor? Ai, Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil… Mas, embora o futuro sucesso e prestígio profissional tenham lhe feito merecer até um telefonema de João Gilberto lá pelas cinco horas da manhã (fl.299); um “…solene Galaxie Landau preto…” que o levaria ao então procurador-geral da República e futuro ministro do Supremo (“o querido Paulo Cezar Sepúlveda Pertence”, de quem aquele confesso usuário de drogas e ex-preso obteve não só apoio para a realização de seu show em Brasília, como um honroso pedido para que os seus filhos –do procurador– fossem ao show no próprio ônibus do cantor, fls.384/385), e a visita ao seu apto de figuras como Robert De Niro (fl.274), o bicho pegou feio pra Lobão, que teria de se render:

  • …se a realidade é uma droga, por que não consumi-la?…” e
  •  “…a pose é o gesto que se premedita…” (fls.357 e 376).

Antes dos 20 anos, Lobão, cuja mãe tinha hsitórico de angústia, já tinha tido uma terrível briga física com o pai –  um dos momentos mais difíceis do livro – e, já casado, engoliu uns quarenta comprimidos da medicação com que controlava a epilepsia (fl.187), o que se repetiria. A morte de D. Ruth,  fulminada por uma tempestade de que o filho se sentiu raio, não deixa de lhe ser outra implosão (256):

A mãe passava por momentos de angústia (clik nas imagens, fls. 166/167)…

… e o havia procurado (fls. 255/256):

No enterro, o não mais Churupito diria,  por escrito: “…minha mãe … que loucura essa vida… nem sempre se vê lágrima no absurdo…” (fl.258)…

… Nem sempre se vê
Lágrima no escuro
Lágrima no escuro
Lágrima!…

(Me, Chama:  http://www.youtube.com/watch?v=i2P-ghDgp3c, a música pela qual o antigo roqueiro recusou U$1milhão a empresas de telefonia; fls. 486, 490 e 540)

Outros momentos de profunda agonia:

  • incidentes com Herbert Viana (Paralamasdo Sucesso), em razão de plágio (fl.253, 357);
  • Vítima de assalto em casa, enquanto compunha e se drogava com Cazuza (fls.279/180);
  •  droga, prisão e julgamentos premeditados… Lobão emerge da sua biografia com vida típica da era hippye que vivera e, em um desses momentos, é “salvo” pelo bicheiro Castor de Andrade (fl.312):

Mas se encrencou com o Juiz (Clique sempre nas imagens para vê-las com zoon):

Lobão foi condenado a “…um ano de prisão, sem direito a sursis…” (fl.315), mas as imagens do crucifixo e de John Lennon (clique na imagem menor acima e na menor abaixo) caíram:

Preso, assistiu a todo tipo de barbárie (todo!), lavou chão de cadeia com sabão em pó e barriga (proibido o uso de vassouras ou rodo, fl. 318) e recebeu a visita do pai, que buscou ajuda ao Dr. Roberto Marinho (fl.319). Foi solto. E fez o Canecão, lotado, cantar o hino nacional ao som da sua guitarra: “…houve um momento em que o tempo se congelou naquela imagem…” (fl.341). Deste período, a fl. 344 traz um diálogo entre esse filho da classe média branca, educada e cabeludo e um preso que lhe ofereceu um cobertor, na sua chegada:

“…Cara, como você tá nessa situação de traficante? Ele: ‘cara, eu sou negro, sou inteligente e sou pobre. Isso é um perigo. Eu tenho inteligência para assumir vários cargos idôneos, cargos normais. Mas eu sou preto (…) Minha inteligência não vale só um salário mínimo. Agora, o que é pior, o tráfico que eu faço ou o tráfico de vida que eles fazem?…”

Agora, fica mais compreensível um certo refrão, né, leitor?:

…Vida! Vida, vida, vida
vida bandida
Vida! Vida, vida, vida vida bandida
Vida! Vida, vida, vida vida bandida
Vida!…

(VIDA BANDIDA)

Talvez até deva lembrar que essa Vida Louca aí acima me lembra o final daqueles já difíceis anos 80, quando, na Residência do Universitário Feirense-RUF (veja PARABÉNS, VEJA!, MULTIUSO11, O CASO BANCOOP II, MULTIUSO10, MULTIUSO8, SEÇÃO MULTIUSO, MULTIUSO 2, EM 2011, TODOS OS SONHOS SERÃO VERDADE?…) passei a conhecer melhor o então “estudante” de jornalismo (sim, aquele de Ô COITADO!) com quem dividi quarto e, talvez, amigos e livro. Tudo ia bem, até que, de repente, o rapaz torna-se voraz militante marxista-leninista e chega à presidência da Casa já irreconhecível…

…Só pra se ter uma ideia2: foi lá, na Ruf, que o vi instruindo uma outra militante (esta, profissional e não estudante, apesar de jovem) a acusar falsamente, em assembleia, os adversários políticos com quem ele disputava eleição para o grêmio da então Escola Técnica Federal da Bahia (se me recordo bem, ele também estudava lá). Sabe quem – vim a saber recentemente – era um dos possíveis acusados? Hilton Coelho. Se liga “Hilton 50”!

Saído da cadeia, Lobão enfurna-se “…em leituras beat como Kerouac, Burrougs, Gisberg, Bukowsk …” (muito usada na época. Como estudante, eu mesmo fiz uma monografia a respeito) … e decide “…explorar o submundo” (fls.277). Recebe convites de “traficantes carentes”  que “…clamavam por sua presença em suas comunidades…” (fl.387) e sobe o morro. Até em arma pega.

[Lobão/Claudio Tognolli: 50 ANOS AMIL. Rio de Janeiro; Nova Froteira, 2010]

Veja também

LER DEVIA SER PROIBIDO

 É MUITA ONDA

ÉTICA NÃO É IDEOLOGIA

ILUSÕES PERDIDAS 

MADE IN URUGUAI 

A ERA LULA- parte 1

PARTIDO DA CLEPTOMANIA DO BRASIL

MULTIUSO9

ENQUETE5

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