CISNES SELVAGENS

… a minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo que fizemos…

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……………………………………………………………CISNES SELVAGENS

“…Fizemos um monte de fotos da montanha e acabamos todo um rolo de trinta e seis exposições (…) Na descida, passamos por uma mansão de dois andares, oculta numa touceira de guarda-sóis chineses, magnólias e pinheiros (…) pareceu-me um lugar extraordinariamente bonito e bati minha última foto. De repente, um homem materializou-se do nada e me pediu em voz baixa mas discuRSO 2impositiva que entregasse a minha câmara. Usava trajes civis, mas notei que tinha uma pistola. Ele abriu a câmera e velou todo o rolo de filme. Depois desapareceu como se a terra o tivesse engolido. Alguns turistas parados perto de mim sussurraram que aquela era uma das mansões de verão de Mao. Senti outra pontada de repulsa por Mao, não tanto pelo seu privilégio, mas pela hipocrisia de permitir-se luxo, enquanto dizia para o seu povo que todo conforto era ruim para eles…” (fl.456)

CISNESO extrato acima é do livro CISNES SELVAGENS, Três Filhas da China (Jung Chang, Cia das Letras, 2ª edição, 1991) e os grifos são nossos. Por quê? Por que é importante ressaltar, como faz a autora em quase todo o seu intenso relato do que foi a China desde a sua avó até a morte de Mao, o quanto o mundo é fugaz, em especial quando ideológico e fechado. Como a “outra pontada de repulsa” ocorreu quando ela estava se despedindo do seu país, aquele foi, na verdade, o último choque que a última das três filhas da China tomou em relação ao “presidente” a quem havia aprendido a idolatrar na adolescência. Nesse período, ela esteve entre os filhos de dirigentes encarregados de formar a enlouquecida guarda vermelha que, em nome de Mao, viria a triturar o que encontrasse pela frente, inclusive a sua própria família, que [Psiu! veja a definição dfascismo kondere fascismo do comunista histórico brasileiro Leandro Konder em CRIME OU ARTE?], depois de arrasada, foi mandada para uma “educação pelo trabalho”, no campo.

Sim, antes de dar-se conta de si, a meiga Jung Chang que o livro revela empunhou o famoso livrinho vermelho de Mao, e assistiu a todo tipo de barbárie fascista [queima de livro, destruição de objetos de arte, invasão generalizada de casas e surra de cinto em famílias a quem se julgasse inimigos de classe”…] e viu o seu rígido pai  chorar quando teve de queimar uma parte de si: os livros (fl.312).  Outra vez, ele, já destruído por todo tipo de tortura, jogou no fogo todo o salário…

Sobre o pai:

“…meu pai queria que nos tornássemos cidadãos honrados e de princípios, que é o que ele acreditava fosse a meta da revolução comunista … meu pai achava que essas eram as qualidades que faltavam na velha China, e que os comunistas iram restaurar … Uma vez censurou Jin-ming (irmão) por fazer um avião com uma folha de papel que continha o timbre do seu departamento…” (fl.234)

Foi, aliás, viajando pelo país na condição de ativista oficial de Mao (guardas vermelhos) que ela teve o seu primeiro desassossego mental:

“… nós viajámos cerca de 3 mil quilômetros nessa excursão, num estado de exaustão que eu nunca experimentei em minha vida. Visitamos a velha casa de Mao, que tinha sido transformada num museu-santuário [preste bem atenção, leitor, porque, como você verá, sob a Revolução Cultural de Mao, a China perderá não só uma década de economia e gente como quase todo o seu patrimônio histórico-cultural].  Era mais ou menos grandiosa –muito diferente de minha  ideia de uma cabana de camponeses explorados que eu esperava que fosse. Uma legenda embaixo de uma enorme foto da mãe de Mao dizia que ela fora uma pessoa muito bondosa e, como sua família era relativamente rica, muitas vezes dera comida aos pobres. Então, os pais de nosso Grande Líder tinham sido camponeses ricos! Mas os camponeses ricos eram inimigos de classe! Por que os pais do presidente Mao eram heróis, quando outros inimigos de classe eram objeto de ódio? A pergunta me assustou tanto que a eliminei imediatamente…(fl. 298)

Agora (1978), aos 26 anos, com formação universitária concluída e consciência dos rios  de sangue e lágrima que vira o país desnecessariamente fazer correr, ela lembrava que foi o próprio MaoTse-Tung quem decidiu e impôs– inclusive nos primeiros dos dez anos do que ele chamou de Revolução Cultural – que “…grama, flores e bichos de estimação eram hábitos burgueses e tinham de ser eliminados” (fl.252).

Como uma inacreditável história de uma família que – muito depois de pegar em armas e ajudar a estabelecer a República Popular e Socialista da China – é devorada pela necessidade de culto de Mao Tsé-Tung, CISNES SELVEGENS… é uma leitura obrigatória para quem tem curiosidade quanto ao funcionamento e a impessoalidade de um Estado-Dono. Também é o livro ideal para quem quiser testar a validade da frase “nada é público onde nada é privado”, que conheci há anos e não lembro onde. Bom, também, para quem tem tendência a se perguntar sobre o por que de socialistas nada utópicos tenderem tanto a  se perpetuar no poder. Tudo isso a alma de escritora da autora fareja e, nesse farejar, espreme:

  • a vida diária sob um partido único:

“…o sistema definia tudo: desde o tecido do capote de alguém – se era feito de lã ou algodão barato -, até o tamanho do seu apartamento e o fato de ter ou não banheiro interno…”, fl. 165;  …havia treze blocos de apartamentos (…) Quatro destinavam-se a diretores de departamentos e o resto aos chefes de repartições. Nosso apartamento ocupava todo um andar, enquanto os chefes de repartição tinham de dividir um andar por duas famílias. Nossos quartos eram mais espaçosos. Tínhamos telas anti-mosquitos nas  janelas, o que eles não tinham, e dois banheiros, enquanto eles só tinham um. Tínhamos água qeunte três vezes por semana, enquanto eles não tinham nunca… (fl.226). … A vida no conjunto era autossuficiente. Tinha suas próprias lojas, cabeleireiros, cinemas, salas de baile, além de encanadores e engenheiros... (fl.227)

  •  a personalidade doentia de Mao:

…após 1955, as origens familiares foram se tornando cada vez mais importantes. À medida que passam os anos e Mao lançava uma caça às bruxas atrás da outra, o número de vítimas foi se avolumando e cada vítima implicava muitas outras, inclusive e acima de tudo, a sua família imediata… (fl. 190)… os que manifestavam dúvidas eram imediatamente silenciados ou demitidos, o que também significava discriminação contra a família e uma sombria perspectiva para os seus filhos… (fl.207)

“…na primavera de 1956, Mao anunciou uma política conhecida como as Cem Flores (que desabrochem cem flores!) … o partido convidou intelectuais a criticarem as autoridades de todos os escalões (…) Minha mãe achou que isso se destinava a fomentar uma maior liberalização. Após um discurso de Mao sobre o assunto (…) ela ficou tão emocionada que não conseguiu dormir à noite. Achava que a China ia realmente ter um partido moderno e democrático, um partido que acolheria as críticas para revitalizar-se. Sentiu-se orgulhosa de ser comunista… (fl. 194)Na verdade, Mao disse depois aos líderes húngaros que o seu pedido de críticas fora uma armadilha(fl.195)para atrair as serpentes para fora de suas tocas” (fl.196) … as pessoas haviam aprendido a desafiar a razão e a viver no mundo do faz-de-conta…” (fl.208)

  • e o seu rancor pelos dirigentes que corrigiram o seu terrível GRANDE SALTO PARA FRENTE (1958/60, na verdade, O GRANDE SALTO PARA A FOME)

Superada essa tragédia que, ao invés de aço produzido em casa, gerou 30 milhões de mortes (fl.216),  árvores peladas [inclusive porque as pessoas comiam as folhas, fl.218 e 242] e o quase completo desaparecimento de Mao, a premiada autora diz que “… as pessoas estavam relativamente satisfeitas…” . Com o quê? Com o pragmatismo  de Deng Xiaoping e Liu Shao-chi:não importa se o gato é branco ou preto, contato que pegue ratos”. Mas, diz a ex-guarda vermelhatodo o crédito dessa nova satisfação era transferido [pelo partido] a Mao. Por quê? A esperança era de que, glorificado, ele deixasse o país e o poder em paz.  A própria adolescente que viria a ser a autora “… compunha apaixonadas elegias agradecendo a Mao por todas as suas conquistas e jurando-lhe imorredoura lealdade…”(fl. 253).

Só que “… As reuniões de fevereiro foram um divisor de águas para Mao. Ele viu que praticamente todo o mundo se opunha às suas políticas. Isso levou ao total descarte –só não no nome- do Partido. O Politiburo  foi, de fato, substituído pela Direção da Revolução Cultural. Lin Piao logo começou a afastar comandantes leais aos marechais, e o Comitê Central Militar foi assumido por seu gabinete pessoal, que ele controlava por intermédio de sua esposa…(fl.316)

De repente, todas as decisões tomadas e executadas pelo Partido [inclusive o controle da natalidade, fl.256] viraram direitismo e os seus executores ou seguidores, “Autoridades Burguesas Reacionárias”, “Inimigos De Classe” ou “Sequazes Do Capitalismo” (…) “Mao estava magoado. Sentia que os adversários o haviam humilhado, mostrando-o como um incompetente. Precisava vingar-se e, consciente de que os adversários tinham largo apoio, precisava aumentar imensamente a sua autoridade. Para conseguir isso, precisava ser deificado… (fl.246). Iria começar o grande expurgo a céu aberto que duraria de 1966 até a morte Mao (1976), o que talvez tenha sido a sua maior contribuição para os acervos da tirania. Nem Stalin ousou tanto, ja que as suas guerras aos “adversários” e ao pensamento  eram feitas pelos seus serviços especializados, seguindo a etiqueta convencional. Mao não. Usou a própria sociedade como arma.  Primeiros sinais:

“…Nosso livro de língua chinesa agora continha mais propaganda e menos literatura clássica, e a política, que consistia sobretudo das obras de Mao, tornou-se parte do currículo …” (fl250).

A REVOLUÇÃO CULTURAL

“… Mao rasgara a resolução de fevereiro e declarara que todos os intelectuais dissidentes e suas ideias deviam ser eliminadas (…) Meu pai e minha mãe, como outras altas autoridades do Partido, viam que Mao decidira punir algumas autoridades (…) A apreensão e a perplexidade os arrasavam (…) Enquanto isso, Mao fez a sua mais importante jogada organizacional: estabeleceu a sua própria cadeia pessoal de comando (…) Primeiro, escolheu como seu vice  o marechal Lin Piao …” (o militar que estimulava o culto a Mao nas forças armadas) (fl.258). Depois, “… criou um novo órgão, a Direção da Revolução Cultural, sob o comando de seu ex-secretário Chen Boda, com seu chefe dos serviços de informação kang Sheng e a sra. Mao como seus chefes de fato… Em seguida, Mao voltou-se para os meios de comunicação, sobretudo o Diário do Povo, que tinha a maior autoridade, já que era o jornal oficial do partido e a população se habituara a tê-lo como  a voz do regime. Nomeou Chen Boda para assumi-lo (…), assegurando com isso um canal através do qual podia falar diretamente a centenas de milhões de chineses (…) A partir de junho de 1966, o Diário do Povo despejou sobre o país um editorial estridente após o outro, pedindo “o estabelecimento do presidente Mao como autoridade absoluta (…) e exortando as pessoas (…) a juntar-se à empresa imensa e sem precedentes da Revolução Cultural …”, (fl. 259)

Na verdade Mao queria livrar-se dos 2/3 do partido sobre os quais não exercia controle e, como informa Jung Chang, além de ódio, ciúmes e carência física de poder, aquele antigo rival de Stalin  tinha medo, naquele começo de 1966. Há dez anos o Stalinismo  havia sido denunciado pelo próprio partido da URSS; o próprio líder  que o denunciou (Kruschev) já tinha tido a sua própria cabeça rolada há dois anos; e, como se sabe, ninguém fora (ou dentro) do poder, pode dormir em paz sob qualquer ditadura, muito menos a “DO PROLETARIADO”.  É o que deixam ver:

  • a própria autora em sua segunda obra (MAO, A HISTÓRIA DESCONHECIDA. Cia das Letras, SP, 2006), onde o tirano socialista aparece se assustando com o estalar da madeira antiga de  uma de suas casas de campo (fl. 480);
  • e o escritor e jornalista inglês Simon Sebag, que  em STALIN, a corte do czar vermelho (Cia das Letras, S. Paulo, 2006),  mostra um Stalin com “medo da própria sombra” (fls. 570, 573 e 586) e, entre camaradas e companheiros,  bebendo apenas da própria garrafa (fl. procurei mas não achei).

Continua Jung Chang:

”… Em minha escola, o ensino parou completamente a partir de junho (o país parou por 10 anos), embora tivéssemos de continuar indo lá. Alto-falantes estrondeavam  editoriais do Diário do Povo,  e a primeira página do jornal, que tínhamos de estudar todo o dia, era muitas vezes totalmente tomada por um retrato de página inteira de Mao (…): O presidente Mao é o rubro sol em nossos corações!’; ‘O pensamento de Mao Tsé-tung é nossa linha vital’ Esmagaremos quem se opuser ao presidente Mao!’; ‘Pessoas em todo o mundo amam o nosso presidente Mao!’; Havia páginas de comentários bajulatórios de estrangeiros e fotos de multidões europeias disputando as obras de Mao (…).  A leitura diária do jornal logo deu lugar à declaração e memorização de As citações do presidente Mao, coletadas num livro de bolso de capa plástica vermelha (…) Todos  recebiam um exemplar e a ordem era de prezá-lo ‘como nossos olhos’. Todo o dia entoávamos trechos dele vezes e vezes sem conta, em uníssono… Ainda me lembro de muitos, palavra por palavra …” (fl.259)

O país foi tomado por uma onda de assembleias de denúncias, jornais-murais, acertos de contas, prisões, espancamento (sobretudo de professores) e suicídios que logo vitimizaria os pais da autora e quase toda a sua família. Surgem os guardas vermelhos:

“…Esses primeiros guardas vermelhos eram filhos de altas autoridades”, a quem Mao “fez o gesto extraordinário de escrever-lhes uma carta aberta oferecendo seu ‘mais sincero e orgulhoso apoio’ (…) Para os fanáticos adolescentes, foi como se Deus falasse com eles. Depois disso, grupos de guardas vermelhos brotaram por toda Pequim e, depois, por toda a China… (fl. 265). Para  estabelecer a sua autoridade única e coagir o Partido, Mao “…precisava do terror – um terror intenso que bloqueasse todas as outras considerações e esmagasse todos os outros medos. Viu nos garotos e garotas na adolescência e início da idade adulta como seus agentes ideais. Eles tinham sido criados no fanático culto à personalidade de Mao e na doutrina da ‘luta de classes’ (…) Eram rebeldes, destemidos, ávidos por lutar por uma ‘causa justa’, sedentos de aventura e ação (…) irresponsáveis, ignorantes, fácies de manipular e inclinados à violência. Só eles podiam dar a Mao a imensa força que ele precisava para aterrorizar toda a sociedade e criar um caos que abalasse, e depois despedaçasse, os alicerces do Partido. Um slogan resumia a missão dos guardas vermelhos: ‘juramos desencadear uma guerra sangrenta contra quem ousar resistir à revolução Cultural, quem ousar se opor ao presidente Mao’

“…Em praticamente toda escola da China, os professores foram ofendidos e espancados, às vezes fatalmente. Alguns colegiais estabeleceram prisões onde os professores eram torturados…” (fl.266).

Após um discurso de Mao para mais de 01 milhão de jovens na praça Tiananmem, “… guardas vermelhos em toda a China ganharam as ruas, dando plena vazão a seu vandalismo, ignorância e fanatismo. Invadiram as casas das pessoas, destruíram as suas antiguidades, rasgavam pinturas e obras de caligrafia. Acendiam-se fogueiras para queimar  livros. Muito em breve, quase todos os tesouros das coleções particulares foram destruídos. Muitos escritores e artistas se suicidaram depois de terem sido cruelmente espancados e humilhados e obrigados a ver as suas obras reduzidas a cinzas. Museus foram invadidos. Palácios, templos, túmulos antigos, estátuas, pagodes, muralhas de cidades –tudo o que fosse ‘velho’  era saqueado. As poucas coisas que sobreviveram, como a cidade proibida, só o conseguiram porque o premier Che Em-lai mandou o exército protegê-las e emitiu ordens específicas para que fossem guardadas. Os guardas vermelhos só iam em frente quando estimulados…” (fl.267)

“uma onda de espancamento e tortura varreu o país, sobretudo nas invasões a casas. Quase invariavelmente, ordenava-se às famílias que se ajoelhassem no chão e se prostrassem diante dos guardas vermelhos; depois eram espancadas com as fivelas dos cinturões  de couro dos guardas. Recebiam ponta-pés, e raspavam-lhe um lado da cabeça, um estilo humilhante chamado de ‘cabeça yin e yang’ …” (fl.. 268)

“…Todos os velhos livros didáticos haviam sido condenados como ‘veneno burguês’, e ninguém tinha coragem suficiente para escrever novos. Por isso, simplesmente ficávamos sentados nas classes declamando artigos de Mao e lendo os editoriais do Diário do Povo. Cantávamos músicas de citações de Mao ou nos reuníamos para ‘danças da lealdade’, girando e brandindo os nossos livrinhos vermelhos…” (fl.356)

“…no início da Revolução Cultural, as crianças haviam insultado o professor à vontade. Tinham-no feito desfilar pela aldeia com pesados Works de ferro fundido empilhados na cabeça e o rosto enegrecido de fuligem (…) Desde então, ninguém pôde ser convencido a ensinar…” (fl.395)

“…Os cinemas só exibiam as poucas obras aprovadas pela Sra. Mao. De vez em quando passava um raro filme estrangeiro, talvez da Albânia, mas a maioria dos ingressos desaparecia nos bolsos das pessoas que tinham ligações. Uma multidão feroz inundava a bilheteria (…) Os cambistas faziam a festa…” (fl.445)

…O que importa que todo o país fique analfabeto? O que importa é que a revolução Cultural consiga o maior triunfo…” – Sra. Mao (fl. 429)

“.. a motivação da sra. Mao (que viria a ser presa como membro da Gang Dos Quatro, após a morte de Mao) pela Revolução Cultural  tinha muito menos a ver com política do que com acerto de contas pessoas (…) Ela teve uma mão na perseguição à sra. Liu Shao-shi (esposa do segundo homem do regime. Ambos aparecem sendo humilhados e espancados na foto ao lado) porque, como ela mesma disse aos guardas vermelhos, estava furiosa com as suas viagens ao exterior com o marido… (fl.317)

 “…Quando Lin Piao (chefe militar de Mao que seria denunciado pela própria filha e morto, com toda a família, quando fugia de avião para a URSS) exigiu a destruição de tudo que representava a velha cultura, alguns alunos de minha escola começaram a quebrar tudo. Com mais de 2 mil anos, a escola tinha muitas antiguidades (…) O portão da escola tinha um telhado velho de beirais esculpidos que  foram quebrados a marteladas (…) Com exceção dos clássicos marxistas e das obras de Stalin, de Mao e do falecido Lu Xunn, cujo nome a Sra. Mao usava para as suas vinganças pessoais, os livros ardiam por toda a China. O país perdeu a maior parte da sua herança cultural escrita. Muitos dos que sobrevieram mais tarde foram para os fogões das pessoas como combustível…” (fl. 274)

Só lembrando: você não está lendo sobre o fascismo.Ms, sobre o socialismo

“…não havia princípio governando o comportamento da vida das pessoas nem a conduta do partido. A corrupção começara a retornar em grande estilo. As autoridades cuidavam primeiro de suas famílias e amigos. Por medo de serem espancados, os professores davam a todos os alunos as notas maiores (…) A dedicação ao bem público era abertamente ridicularizada. A revolução Cultural de Mao destruíra tanto a disciplina do partido quanto a moralidade civil…” (fl.450)

 “…para mim, a prova maior da liberdade no Ocidente é que aparecia tanta gente lá atacando o Ocidente e louvando a China (…) Comecei a ver que era a própria tolerância com as oposições, com gente que protestava, que mantinha o Ocidente avançado… (fl.446)

A MÃE

“…várias vezes minha mãe foi obrigada a desfilar pelas ruas com um chapéu de burrona cabeça e um pesado cartaz pendurado no pescoço, no qual se via escrito o seu nome com uma cruz riscada em cima para mostrar suma humilhação e morte. De poucos em poucos passos, ela e suas colegas eram obrigadas a cair de joelhos e prostrar-se em reverência à multidão. As pessoas escarneciam dela (…) Minha mãe e suas colegas tinham de bater a cabeça sonoramente no pavimento de pedra…. (fl.310)

O PAI

“…um dia, ele voltou com um dos olhos seriamente machucado. Outro dia eu o vi de pé num caminhão  rodando em marcha lenta, desfilando pelas ruas. Um imenso cartaz pendia de um fio fino que cortava o seu pescoço, e ele tinha os braços ferozmente torcidos para trás. Lutava por manter a cabeça erguida sob a forte pressão de alguns rebeldes. O que me deixou mais triste era que parecia indiferente à dor física. Na loucura, a mente parecia separada do corpo…” (fl. 334)

Antes de ser enviado para o trabalho forçado (cada membro da família foi para um campo diferente) o pai da autora teve oportunidade de se render ao maoismo, inclusive sob pressão pública. Os seus próprios algozes observaram: “eis aí um homem de princípios” (fl. 334)

Nota1: o pai da autora foi uma das autoridades que vetaram um artigo de Mao, quando ele, ainda em baixa, começou a falar em “revolução cultural” com dimensão não apenas acadêmica, como o Partido admitia.

Nota2: depois de usá-los, Mao mandou quinze milhões de jovens para o campo. Nenhum deles era filho de qualquer autoridade ou membro do partido (fl.359).

Nota3: com a reabilitação dos pais e a sua própria volta do campo,  Jung Chang tornou-se operária e chegou à universidade passando por seleções objetivas e pelo sistema que levava em conta o “comportamento político” do aluno, posteriormente extinto. A sua aprovação para estudar fora do país foi por mérito profissional (fl.475)

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2 respostas para CISNES SELVAGENS

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