DOGVILLE

... esta é uma pergunta que não beneficia a ninguém fazer
 nem responder. E a resposta não deve ser dada aqui...

Assim termina o filme que, em português, poderia ser chamado A vila dos cães. Antes que as cortinas se fechem, entretanto, um Dog se solta do chão, rasgando ferozmente o desenho que o aprisiona (tudo no filme, com exceção das pessoas, dos carros e das armas, é giz no chão).  São assustadores os seus ganidos. E, ecoados no último ato do filme, vão direto ao calcanhar do expectador, que, de Aquiles ou não, tende a continuar parado (na verdade, tudo no filme, desde a voz do narrador, já o deixou pensativo). Um mal-estar o imobiliza: a franqueza e a indignação com que o melhor amigo do homem ocupa a tela e, olho-no-olho, deixando claro que sabe a resposta, estufa-se, quase perguntando: onde a vida é mais real? Na natureza, que para o humano é o dia-a-dia, ou no giz da sua civilização? 

Filme? Teatro? É interessante ouvir o toc, toc e o ranger de portas que se abrem e fecham sem existir. Tudo quer deixar claro que se trata mesmo de ficção e que o mais importante ali não é o cenário, mas o que ele encobriria**. Tanto que, embora tênues, as luzes claras de Dogville se jogam sobre o trivial, quase suicidamente. Ajuda-as a própria cidade, que não existe fisicamente. Só no papel, como imóvel na planta. Não fosse assim, talvez as câmeras não deslizassem tanto sobre trilhos tão recônditos do set humano. Set humano, entenda-se, é a vida como ela é: Desejo. Poder.  Representação. E nela, cada criatura se debate entre o que é e o que pretende, inclusive dizer. Às vezes (não sempre) aparece uma que se compromete a desempenhar o seu papel de forma a não envergonhar-se dele. É o caso de Grace, a figura central do filme.  Mas, coitada, que escolha infeliz!

Estranha-se, aliás, que, apesar de serem três as poucas horas do filme, a palavrinha mágica que o condimenta (ética) apareça só de raspão. E quando isso acontece é através de Thomas Edson Jr, o personagem-moral que Grace precisou matar. Ela não segurou o cão natural, ferido e desacorrentado dentro de si e, deixando rolar o passado de que quis fugir, só ao dog riscado no chão perdoou. Mais de um cão beliscou a civilização. Um cobrou. Outro duvidou de que ética seja mesmo algum preparo para a vida.

                                                                Feliz natal. Próspero ano novo.

** Dogville (2003) é seguido por Manderlay (2005), outra dúvida cruel de Lars von Trier, diretor.  

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