FIDEL, O FILME

Quem quiser ter uma visão por dentro e não proselitista da Revolução Cubana, veja o filme FIDEL, de David Attood (na Casa de Cinema, Rio Vermelho tinha). Uma das primeiras cenas é justamente a que mais revela o que era Cuba antes de 1959. Nela, convocado às pressas e aos gritos por um companheiro (não lembro se se tratava de algum personagem histórico) que voltava da rua, o ativista não comunista Fidel Castro interrompe um encontro num restaurante do centro de Havana e, estupefato, dá de cara com um punhado de bêbados urinando do alto de um monumento da cidade. Eram marines americanos.

Fidel entra em ebulição e providencia que o bando de milicos do império seja fotografado. A foto sai nos jornais. A partir daí, tudo se encaminha para a revolução. E, como em todo início, as razões e o sangue que reinventam as veias são os do melhor oxigênio. O telespectador assiste à revolução se instalando no coração e mente dos seus personagens e vê o seu desenrolar em incríveis reconstituições. Mas não demora muito para se sentir traído, quando o vulto pessoal do Comandante assoma e começa a destruir os outros.

O primeiro é Huber Matos, que há pouco havia socorrido o movimento guerrilheiro, em momento crucial. Já elevado ao posto de oficial do exército fidelista, esse  revolucionário não comunista se negou a comandar fuzilamentos e ainda falou em “eleições” e “democracia”. Feriu-se de morte. Foi defendido por companheiros que se lembravam de um passado ainda recente e anterior ao poder. Mas o ego insultado de Fidel, que o “românticoChe insuflou, jogou o antigo companheiro na prisão. A cena de Huber Matos adentrando a úmida cela já povoada é chocante.

É inacreditável quando Camilo Cienfuegos, amigo de Huber e seu colega no oficialato do novo regime, comparece com tropa àquela antiga pequena propriedade para cumprir a ordem de Fidel. Bate à porta. A mulher de Huber aparece com um filho no braço e anuncia o antigo companheiro. Camilo anuncia a ordem, abraça-se ao amigo que viera prender e, se não me falha a memória, choram. Almoçam. Foi a última vez em que Huber sentou à mesa em família, antes de, também por longa pressão internacional, desembarcar de cadeira de rodas na mesma Espanha que recebeu os exilados de hoje.

Moral da história: o vulto de Fidel, em pavorosa sombra, percorre corredores e salas do palácio, onde contempla fotografias. Está só. No poder. Não há como o já mencionado Mea Cuba (veja OS BANDIDOS DE CUBA)  não voltar à cena. Lembra mea culpa, minha máxima culpa? É o livro em pessoa. Nele, o já falecido comunista e filho de comunistas Cabrera Infante fala de antes e de dentro do regime. Também esteve preso, após servir como diplomata socialista em Bruxelas, Bélgica. E, após voltar à Europa exilado, teve suas sucessivas residências várias vezes reviradas por “ladrões” que só roubavam manuscritos. ANTES QUE ANOITEÇA (Reynaldo Arenas, Record) é outro detalhado depoimento de ex-preso político nascido no regime e que não o suportou. Esta obra também chegou ao cinema e, nela, o autor, que viveu nos EUA, diz: “o capitalismo nos dá um pé na bunda, mas o socialismo dá um pé na bunda e a gente ainda tem de bater palma…”

Veja, também, matéria interessante em

http://sopensar.com.br/

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