A VIDA DO VIAJANTE: A SAGA DE LUIZ GONZAGA

gonzaga, O LIVRO2

Foi muita falta de vergonha (minha) essa vida de Luiz Gonzaga não já estar aqui há mais tempo, leitor. Quando a ganhei (especial presente de aniversário do meu filho, no ano passado), tive de ser firme na rédea para que as suas poucas 350 páginas não se fossem logo. É que tive a sorte de ainda pegar um rádio com um pouco da época (Luiz Gonzaga, Jakson do Pandeiro, Trio Nordestino, Trio Juazeiro, Marinês e Sua Gente…) e gozar um S. João ainda quase comunitário. Milho, fogueira, cobrinha, traque, bolo, bomba, quadrilha, bigode, costeleta, roupa remendada, candeeiro, sanfona, zabumba,milho, Tucano triângulo e, já grandinho, licor com beijo. São João foi o meu primeiro e mais aguardado carnaval (não perdia nem pro natal, viu?). E, aos 07 anos, ouvi (e jamais esqueci) A TRISTE PARTIDA (http://www.youtube.com/watch?v=r-8rsqTJi-0) … No rádio! Entendeu, né? Que pena eu tenho do meu filho!

Olhe, leitor, eu sei que você conhece A TRISTE PARTIDA. Mas, se por algum compreensível lapso deste incurável país, ela não estiver na sua  Memória, você ainda tem um jeito: veja o documentário O Milagre de Santa Luzia (já o vi 02 vezes: Canal Brasil - 55 na SKY, antigo 66). É uma homenagem a Gonzagão, O Milagre de Santa Luzia, dvdnascido em 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Nele, Dominguinhos, que chegou ao Rio depois de 11 dias de Pau de Arara (junto com pai, mãe e irmãos) roda o país em sua Toyota, encontrando gente que toca sanfona e conta a sua história. Você vai gostar. E se emocionar. Principalmente quando souber do episódio da sanfona e as 21 vozes, narrado pelo próprio diretor: durante a execução daquele que é o maior clássico da nossa música/literatura realmente popular, os demais músicos e as 21 vozes subitamente silenciam. E em silêncio permanecem até que, nove minutos depois, Dominguinhos se recupere do seu choro. Entendeu, né?

É disso que eu gosto”, disse a francesinha de menos de 03 anos de idade, apontando o dedinho para o rádio. Era o ano de 1948, e ela mal tinha chegado ao Brasil. Estava em Garanhuns (PE), onde seus pais foram morar. E quando apontou Gonzaga, Patativa, dominiqueo dedinho para o rádio, era Luiz Gonzaga quem saía de lá. O livro A VIDA DO VIAJANTE: A SAGA DE LUIZ GONZAGA (Editora 34, SP, 1996) tem falhas de português que a editora deveria corrigir, mas é, como o próprio nome diz,  uma viagem ao  pré-sal do Rei do Baião e a redistribuição da sua riqueza. E pré-sal… É pesquisa, né? Nome da francesinha: Dominique Dreyfus. 38 anos mais tarde (1986), trabalhando na cobertura de um festival de música brasileira em Paris, ela reencontrou o seu ainda ídolo. Já “ficando  idoso e cansado“ (fl. 16),  o “Velho Lua” precisava de uma “biografia mais detalhada” (fl.15).  Várias cartas depois, estava ela instalada no Parque Asa Branca, cavando a terra:

gonzaga, livro, 1

“…  o Rei do Baião levou para o restante do Brasil as histórias da caatinga (…)Nascido em Exu, no interior de Pernambuco, Gonzagão enfrentou muitos percalços ao longo de seus 60 anos de carreira. Ainda jovem, deixou sua cidade desiludido depois de perder o amor de Nazarena, filha de coronel que não simpatizava com ele. Depois de passagem pelo exército, o cantor largou a farda para seguir seus sonhos no Rio de Janeiro. Bastou uma apresentação no programa de Ary Barroso, com a instrumental Vira e Mexe, para cair no gosto popular…

Gonzaga, 100 anos

 http://entretenimento.r7.com/musica/noticias/veja-a-cobertura-completa-dos-100-anos-de-luiz-gonzaga-20121212.html

É essa história, já mostrada em GONZAGA, DE PAI PARA FILHO (veja MULTIUSO 17), que o livro conta, leitor. Só que em detalhes. Veja:

Gonzaga, Gonzaguinha

Daí:

“…Há um punhado de biografias de Luiz Gonzaga, mas nenhuma conta a vida de Luiz Gonzaga com tantos detalhes confirmados quanto a da francesa Dominique Dreyfus, Vida do viajante: a saga de Luiz Gonzaga (Editora 34, preço médio: R$50). Para fazer o livro, Dominique – que morou em Garanhuns durante a infância e fala português sem sotaque – morou por dois meses na casa do Rei do baião, no Parque Aza Branca, em Exu. Fez entrevistas com parentes e amigos e procurou por documentos e fotos…”

 http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2012/06/09/internas_viver,377901/biografa-francesa-diz-que-luiz-gonzaga-era-vitima-de-racismo-em-casa.shtml)

Clique no link acima (DIÁRIO DE PERNAMBUCO) e leia a entrevista da biógrafa, leitor.  Vale a pena.  Quer ver? Abre a boca e fecha os olhos:

Gonzaga, Gonzaguinha2…A carreira dele [Gonzaga] teve aquele apogeu, depois a terrível queda, e quando os baianos começaram com o tropicalismo e começaram a citar o nome dele, ele refez uma segunda carreira, tão importante quanto a primeira. Era diferente porque era outra época, outra forma. Mas ele foi tão importante na primeira quanto nesta terceira fase. O Gonzaga falou de uma maneira extremamente tranquila, e até com certo humor, sobre a queda, sem nenhuma amargura. “Pois é, a bossa-nova chegou e acabou com tudo…”’

Claro que só após a luz elétrica (Ufba do fim dos anos 70 e um bom pedaço dos 80) é que vim a saber da importância daquele mundo. Dava gosto ver no topo da MPB e de um ambiente universitário nacionalista e de esquerda Gonzagão, Gonzaguinha, Dominguinhos, Sivuca, Jakson do Pandeiro e a então nova explosão do Nordeste: Fagner, Alceu Valença, Amelinha, Ednardo, Belchior, Zé Ramalho, Elba, Geraldo Azevedo…  Essa galera, que mamou no peito da mãe ouvindo Luiz Gonzaga e Evis Presley e passou pela universidade curtindo Beatles e Tropicália (fl.273), me devolveu ao sertão. Como o próprio Gonzaga, aliás, havia sido repatriado, antes. Veja (fl. 81):

Gonzaga carioca, fl81

E, aí, uns cearenses salvaram a pátria…

Gonzaga carioca, fl81 - 2

Só que os saudosos cearenses insistiram. E ameaçaram não “…botar mais moeda no pires do sanfoneiro se ele não tocasse uma coisinha lá do Nordeste…” (fl.82). Quanto devemos ao Ceará, hein, leitor! Gonzaga tocou. E aí…:

gonzaga, vira e mexe, anos 40

Ouça isso, leitor: http://www.youtube.com/watch?v=SAv3hhwtQ84

Gonzaga, Vira e Mexe

“… Daqui a pouco o prato estava cheio. Aí pedi uma bandeja. E pensei: agora a cosia vai…” (fl. 82). E foi. Mas, como pancada dada não é tirada (dizia a minha mãe), os 16 anos fora do Araripe deixaram a sua marca (fl. 117):

Gonzaga, carioca 3, fl117

Quer ver a importância do Ceará na vida do nosso primeiro Rei, leitor (reis institucionais não valem)? Veja esta imagem da fl.22 do livro PADRE CÍCERO- PODER, FÉ E GUERRA NO SERTÃO (Lira Neto, Companhia das Letras,  2009):

Gonzaga, a terra

Notou os números 16, 17, 18 e 20 (Araripe, Santana do Cariri, Crato e Juazeiro do Norte)? De lá vem o Meu Araripe, que (junto com A TRISTE PARTIDA e ASA BRANCA)  é o canto que mais aperta o meu coração:

…Meu Araripe,Gonzaga, Meu Araripe, LP
Meu relicário.
Eu vim aqui rever meu pé de serra,
Beijar a minha terra,
Festejar seu centenário…”

Por favor, clique: http://www.youtube.com/watch?v=jjkt5Yc62Sc

Mais um tiquinho:

gonzaga, sanfona e boneca, prima Sofia

Gonzaga, pnta de lapisE foi assim que o nosso Lampião das letras e da Sanfona, que nos anos 40 gravou marchas e frevos para o carnaval (fls.113, 130), deixou para trás o tempo “…do pires, das humilhações…” e do “…vai trabalhar vagabundo…” (fl.91). Mexendo em seu matulão (“…A maleta era um saco, e o cadeado era um nóPAU DE ARARA: http://www.youtube.com/watch?v=jHznLN3GvW4) foi eleito o melhor compositor nacional por três anos consecutivos (fl145) e o campeão de cartas da Rádio Nacional (fl.145). Tudo isso já no início dos anos 50:

Gonzaga, vendagens, HT, deputado, fl.145

E foi nesta condição de “…primeiro produto industrial da cultura do nordeste…”  (…) de “…primeiro fenômeno de massa, comparável, num nível nacional aos futuros Elvis Presley e Beatles…” (fl. 158) e já morando em “Palacete” no Rio (fl.158) que o Rei do Baião mais se aproximou da sua gente e da sua terra (fl.150):

Gonzaga, bandas de pifeGonzaga, bandas de pife -2

Um caminhão foi comprado e mandado buscar toda a família no Araripe, e toda a família passou a se apresentar em show, inclusive na Europa (fls. 175, 178, 179):

Gonzaga, Os sete gonzagas, São joão

Mas, não ainda estaria faltando algo, leitor?

Gonzaga, Lampião, fl. 181

E foi nessa volta, andando pelas tradicionais feiras do nordeste, que descobriu Dominguinhos (fl. 192)

Gonzaga, Dominguinhos, fl192

Já em Nilópolis (RJ), em 1957, com a ajuda de Gonzaga e Helena (sua esposa), Dominguinhos formou o primeiro Trio Nordestino (fl.202), do qual sairia posteriormente para juntar a sua sanfona à do Rei. Assim, também foram encontrados e revelados Jakson do Pandeiro (fl.193) e a “PATRULHA DE CHOQUE DE LUIZ GONZAGA”, que passaria a se chamar Marinês e Sua Gente (fls.193/194), etc (clique nas imagens para vê-las em tamanho natural).

Gonzaga, dominguinhosGonzaga, Marinês, 1955, fl.194

“…Quando olhei a terra ardendo Qual fogueira de São João… / olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo...

bandeirola, balão, bonecosE não foi atrás da tirania desse Rei que percorri, no último São João, um bom pedaço de Sertão? Na Bahia, dei por encerrada a minha busca. Fui até Canudos. Por onde passei, tinha balão, bandeirola, fogueira, mas… Música de São João, que é bom… Só grandes palcos e valdirenezoadão (fundo de carro com axé, pagode, arrocha, “ forró” de plástico, iped, ipod, smatfones… e talvez até Palhaços e Valdirenes). É  a vida, né? Faltou a marca da Cultura: a Tradição. Por favor, leitor, ouça esse livro.

Veja, também: BAILINHO DE QUINTA, BECHARA, GEYSI E O LIVRO “POR UMA VIDA MELHOR”, o blog, NADA É TUDO, O POVO NÃO É BOBO, ABAIXO…, 50 ANOS A MIL: A EPOPEIA DE LOBÃO-parte1, MULTIUSO9, MULTIUSO15, LULA E DILMA, 10 ANOS, “ACORDA BRASIL”

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